Eu tinha 17 anos, ele tinha 19. Estudávamos na mesma faculdade, estagiávamos no mesmo lugar em turnos diferentes. Em uma festa dessas para reunir todos, foi quando nos olhamos de forma diferente pela primeira vez. Eu, uma novata na vida da boemia, ele, um bon vivant de estirpe e garbo. Eu, quase uma menina, ele, um cordeiro em pele de lobo.
Cheguei na festa com a inocência de quem iria sobreviver. Cheguei na festa e nem imagina o que iria beber. Tomei um tal de suco gummy, fiquei mole e arretada, o forró tocava e eu cada vez mais a me soltar. Ele me pegou pela mão, me chamou pra dançar. O que era para ser forró, em nosso corpo, em nossas pernas, em nosso bate-coxa, virou lambada. Meus olhos tonteavam pela varanda e fui arrastada para a rua de paralelepípedos. Encostei no carro, apoiei o calcanhar entre duas pedras da rua e me apoiei com o olhar pequeno e difuso dominado pelo álcool.
Ele me beijou. Eu perdi o chão. Melhor beijo que já havia provado. Melhor beijo da minha história. Melhor encaixe de lábios e respiração. Nos beijamos por segundos, minutos, horas… Nos beijamos, nos tocamos… Eu não estava bem, precisava descansar, mesmo assim o desejava como quem busca o ar em momentos de sufoco.
Ele vendo meu desnorteio me levou ao seu quarto. Fui oferecida, periguete, danei de fazer confete e ele pedindo pra ligar pra minha mãe. Na minha cabeça ele não queria. Até hoje ele diz que eu penso demais. É verdade. Até que eu dormi.
Já na madrugada ele me acorda. Sem saber se estava sonhando ou acordada e ainda entorpecida com nosso beijo, resolvi voltar a roçar minhas pernas no seu corpo, a jogar meus lábios sobre os seus. Mais uma vez ele pede para eu ligar pra minha mãe e avisar que irei dormir ali. Nessa hora tive certeza que seria dele, a qualquer momento, a qualquer hora depois da ligação. Falei com minha mãe e mais uma vez me ofereci. Fui deixada ali. Ele voltou com um pijama da irmã, uma toalha e me levou ao banheiro em frente ao seu quarto. Pronto! Seria ali, no banho, com a água escorrendo pelo nosso corpo e aos poucos me curando do álcool e do meu estado descomunal.
Mais uma vez fui surpreendida, ele encostou a porta e me deixou sozinha ali. Tomei banho ainda na esperança de tê-lo depois do banho. Repetindo pra mim mesma que ele só me queria cheirosa e recomposta pra ele. Saio do banho, coloco o pijama, saio do banheiro, coloco a mão na maçaneta da porta e descubro que ele se trancou no quarto. Sozinho. Sem mim.
Não tinha condições de pensar! Fui ao quarto do lado, me joguei numa cama de solteiro que estava ali e dormi. Acordo com o raiar do dia a despontar pela janela aberta. Troco a roupa e mais uma vez vou sondar se ele estava acordado ou a porta destrancada. Nada! De repente me aparece a mãe e a irmã dele e me convidam para tomar café. O constrangimento me dominava nessa hora.
Como menina agi. Menti a todos que não lembrava do que havia ocorrido. Estava constrangida e naquela época não sabia lidar com o constrangimento. E óbvio que ele ficou com raiva de mim.
Passados um mês, saímos novamente com o mesmo grupo, o nosso grupo, para o bar mais próximo. Bebemos e bebemos. Até que uma hora estávamos um ao lado do outro pegando uma garrafa de cerveja no balcão com um amigo em comum. Ele abre a cerveja, me pega pelo braço, me joga na coluna que dividia a frente do bar e nosso amigo sai com a garrafa na mão olhando pra gente se agarrando durante tempos e tempos e sem conseguir se desgrudar ou se soltar um minuto sequer.
Foi assim durante todo nosso período de estágio.
Depois disso, a vida… Ou seria o destino? Resolveu nos separar.
{Música de tempo passando}
Nos reencontramos pela internet e descobrimos a coincidência mais absurda. Estávamos morando na mesma rua. Marcamos de nos ver em um shopping simples do bairro. Assistimos um filme de terror (muito ruim por sinal) e paramos para beber algo no “Tio Frank”. Pior primeiro encontro. Melhor companhia.
A partir daí começamos a sair várias vezes. Geralmente ele aparecia as 2 da madrugada ou ligava e ficávamos horas debatendo as nossas teorias da vida. Eu falava, sempre falei muito, ele ouvia e pedia para eu falar mais enquanto jogava sua gargalhada para ecoar.
Depois de três meses, completamente entorpecida pela companhia, amizade e um desejo descomunal (sempre potencializado por aquele beijo), resolvemos ir mais além.
Infelizmente parecia que alguma coisa conspirava quando tentávamos transar. A primeira, quebramos minha cama, ele suava como louco pela minha falta de ar condicionado e o computador colado na cama atrapalhava mais do que ajudava tocando a playlist que eu havia montado. Restou-nos desistir de tentar.
Na segunda resolvemos ir para casa dele, “ver um filme” e eu pró-ativa resolvi pegar um DVD na minha casa para ajudar. Mas a insanidade de mudar os DVDs de capa gerou a gafe da noite. O filme que levei foi “A paixão de Cristo”. Terminou os dois chorando compulsivamente no fim da noite.
As histórias são tão bizarras que quem ouve acha difícil ter se transformado em um caso de amor. Algumas vezes ele acordava com meu ronco, algumas vezes eu acordava com o dele. Algumas vezes dormíamos chapados. Algumas vezes rolavam gafes sobrenaturais proibidas para sempre publicadas assim, para quem quiser ler.
Uma sequência de desastres sexuais que aconteceram durante os dois anos que saímos, brigamos, brincamos e nos desejamos.
Até o dia que eu desisti do nosso amor. As lágrimas que corriam no meu rosto por mais uma gafe de descaso fez minha fila andar. Ele correu atrás. Ele se declarou. Era tarde demais.
Até hoje fazemos juras de saudade, do beijo, nesse amor que virou amizade – ou não. Nos falamos sempre, sempre que nos falamos sentimos saudade, sempre que nos falamos tenho vontade de escrever e de externar esse amor. Talvez essas juras sejam por saudade daquele tempo, ou por saudade do beijo sem igual para ambos, ou por saudosismo puro e simples.
Se o destino será nosso amigo? Se ainda temos a mesma química no beijo? Se um dia ficaremos juntos? Não importa os “se”. O que importa é que tenho uma história de amor pra contar. Uma história de amor bem longe dos contos de fadas tradicionais, afinal nós nunca fomos tradicionais mesmo…








