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Desabafo de uma filha da geração Y

Hoje pela manhã me vi discutindo comigo mesma sobre o maior desafio atual do mercado de trabalho. Muitos sites e blogs já explicaram e, até hoje, explicam quem e como pensam as mais diferentes gerações, mas – nunca vi ou li – debaterem sobre o desgaste visto no mercado profissional por causa desse embate de gerações.

Minha intenção não é explicar as gerações e nem como elas pensam… Muitos já fizeram isso e com muito mais propriedade do que seria capaz. A intenção aqui é pensar de maneira prática os problemas ocasionados profissionalmente por essas mudanças tão rápidas de gerações.

Na época da minha avó não existiam computadores. Na época dos meus pais o máximo que lidavam com computadores eram os mainframes e sua relações com as intranets das empresas. Na minha época, vivemos um mundo de PCs mais avançados, e meu sobrinho vive um mundo mobile e de acesso a internet através de video games.

Na família tudo transcorre mais facilmente… Eu ensino para a minha avó, para o meu pai, um pouco para o meu sobrinho, mas ele me ensina sobre como conectar no PS3, navegar na rede da Sony. Tudo na paz. Na diversão.

O que, creio eu, nunca foi discutido, é como isso tem afetado o mercado de trabalho.

Como trabalho com redes sociais, sou constantemente bombardeada com esse conflito de gerações no âmbito profissional. Vou mais além, as agências de publicidade digitais são lotadas de pessoas que como eu representam e coordenam os núcleos. Temos 20 a 30 anos… Somos multiconectados… Somos multitarefados, irriquietos e não pensamos tanto em quanto isso ou aquilo vendeu, mas sim quanto isso ou aquilo gerou adeptos, comentários… Buzz!?!

Outro dia, vendo um talk show, me deparei com Roberto Justus conversando com um dos fundadores do Instagram. Quando Justus o perguntou como ele ganhava dinheiro com o aplicativo, a resposta foi clara: “ainda não ganhamos dinheiro com ele, mas já é um sucesso”. Justus na mesma hora comentou que isso era uma das maiores diferenças que ele via entre os jovens empreendedores atuais, em comparação com os da época dele.

E tem sido esse o maior embate atual no mercado de trabalho.

De um lado temos jovens, frutos de uma geração Y, tentando – por exemplo – apresentar um projeto de Redes Sociais onde pensamos capacidade de viralização, buzz, branding da marca… E no outro lado do córner, Baby Boomers ou frutos da geração X que chefiam grandes empresas no país e que procuram em todo o tempo o ROI, quanto venderam, o lucro obtido, resultados mais concretos e palpáveis. Virou uma luta diária e muitas mentes pensantes tentando encontrar formas de aproximar essas duas visões.

A relação com minha avó, se não fosse pautada e não tivesse um alicerce de amor, provavelmente seria essa guerra de classes. É a minha avó de um lado mandando PPTs com correntes para o meu e-mail e de outro, eu implorando pra minha avó conhecer os aplicativos do iPhone. Eu falo uma língua alienígena pra ela. Ela fala uma linguagem arcaica e em desuso pra mim. Acho que jamais esquecerei esse fim de semana quando comprava os ingressos do cinema para minha irmã, sua família e eu através do aplicativo no iPhone e minha avó falou: “Ela tá comprando os ingressos no celular??? Como assim???”

Agora imagine essa diferença vista pelo prisma profissional, ao invés de virar um arco-íris como minha relação com minha avó, a luz tem sido direcionada direto para as córneas de um e de outro, virando uma cegueira de ambos os lados.

Os baby boomers, ou os filhos das Geração X, que defendem as grandes empresas, acreditam piamente que ao discordar de ações que não geram vendas rápidas e lucro, estão protegendo suas empresas da falência. Estão errados? Não, não estão. Mas do outro lado os jovens da geração Y lutam para levar as empresas para esse mundo hiper-mega conectado, dos quais são especialistas, estudiosos e experimentados. Nesse lugar maluco e paralelo onde baixar músicas e filmes não é sinônimo de perder dinheiro e sim de ganhar fama e prospecção. E eles – ou diria nós – estamos errados? Também não.

É cada um defendendo a sua prole e diante disso empresas trocam de agências digitais como mudam de roupa. Experimentam uma série de ações. Trocam de agência crendo na incapacidade. Depois resolvem fazer internamente. Ou então ficam no feijão com arroz. Oferecem um valor infinitamente pífio para o investimento digital e pagam os tubos por cinco minutos de anúncio na televisão.

Os salários vão pelo mesmo caminho. “Dinossauros” da criatividade “offline” ganham 5, 6 vezes mais que criativos “online”. Para piorar a situação, não só os jurássicos das empresas entram em guerra com essa geração maluca, mas a própria classe publicitária se divide. É o offline. É o digital. “Eles são velhos, pararam no tempo”, pensam os da geração Y. “Eles são jovens, inconsequentes… Como assim eles não imprimem qualquer alteração feita no arquivo? Não sabem se precaver”, pensam os baby boomers, os “geração X”.

Pior do que isso tudo é que ninguém está disposto a ceder. Os “Y” creem que os “dinossauros” jamais vão entendê-los ou respeitar suas opiniões. Os “X” e “BB” pensam que viveram e tem muitos anos nessa área – marketing, publicidade, gestão… – para serem ensinados por fedelhos que acabaram de entrar na faculdade, ou que acabaram de conquistar o canudo.

Ai de mim ter a solução para essa luta constante. Afinal, sou mais uma filha da geração “Y” que sofre com esse embate e tem buscado desesperadoramente por minimizar os ruídos da comunicação. Minha avó sempre disse: “É mais fácil achar a solução para os problemas quando você está fora deles”, mas eu não perco as esperanças.

Talvez esse desabafo alcance eco. Talvez não. Vendas e lucros eu tenho certeza que não vão gerar… Em sonho cogito – quem sabe um dia – imprimam este texto e coloquem nas mesas dos membros das minhas gerações antecessoras e façam eles compreenderem que não só eles sofrem por não nos entenderem, ou por vislumbrarem as genialidades de nossas criações, mas percebam que a gente também sofre por não se fazer entender e, por isso, não conquistar o valor – o retorno – daquilo que fazemos com tanto amor. Quem sabe um publicitário “digital” irá imprimir esse texto e mandar para o criativo “offline” e ao invés de pessoas, como eu, serem considerados meros “analistas de mídias sociais” (sim, com esse tom mesmo de ironia) sejam lembrados simplesmente como publicitários e criativos – como realmente o são – mas para ferramentas diferentes… As redes sociais.

No final, todos trabalhamos para o mesmo objetivo. Os publicitários “off” e “on” para conquistar mais contas, ganhar prêmios, notoriedade, ganhar dinheiro e ver suas criações gerando mais e mais frutos. As empresas e os publicitários digitais para levar o sucesso e o crescimento do seu cliente, reverberando – Deus é Pai – em seus salários. E assim chegarmos finalmente a Atlântida.

E quem sabe a Atlântida esteja logo ali. Oremos!

11 respostas »

  1. O post tá bem bacana, Renata.
    Eu penso diversas coisas a respeito desse choque de gerações, já transitei nos últimos anos pelo lado onde você está no mercado – apesar de não ser publicitário – e, honestamente, não chego a conclusão nenhuma.
    Olhando de uma forma bem objetiva para a situação, me parece normal que publicitários “offline”, como você chama, sejam mais valorizados, uma vez que eles criam peças que são grandes investimentos, na verdade. Investimento financeiro, mesmo, pois uma campanha na TV Globo, por exemplo, custa, provavelmente, o que eu e você ganhamos por ano juntos.
    E uma coisa é fato: nada tem mais poder, ainda, do que um anúncio na TV Globo.
    Por mais que a gente viva nesse mundo multiconectado, ainda somos uma minoria absurda.
    Anunciar na Globo – de novo esse exemplo – não é tiro de canhão pra matar formiguinha, como muitos dizem. É uma bomba atômica para atingir cidades inteiras.
    Por sua vez, quem trabalha com redes sociais – apesar de ser tão criativo quanto, como você disse – utiliza uma ferramenta gratuita. E essa coisa do “gratuito” faz com que qualquer empresa pense: “Porra, pra que eu vou gastar os tubos numa campanha pro Facebook e pro Twitter?”.
    Estar nas redes sociais hoje em dia, tanto para fazer buzz quanto para falar diretamente com o consumidor, é algo fundamental. Não tem como não estar.
    Mas eu acho que o modelo atual tende a morrer. As agências estão numa bolha que vai explodir quando as empresas perceberem que elas devem ter, dentro delas, em seu departamento de marketing, um núcleo de mídias sociais.
    Por essas e outras, eu dei um jeito de pular fora desse mercado. Até porque, nunca fui publicitário e isso não está na minha essência. Meu lance é jornalismo, é apurar e escrever matérias, editar…
    Bom, desculpa se minha opinião aumenta sua inquietação. Mas é o que eu penso a respeito! : )

    Responder
    • Pelo contrário Raphael… Já penso nesse futuro a muito tempo! Sei que irão migrar internamente, mas mesmo internamente haverá esse choque de realidade. A questão aqui não é a agência em si e sim os donos de empresa de outras gerações entenderem e aceitarem o que é de uma geração diferente da deles. Isso vale para qualquer área, usei redes sociais apenas por ser a minha realidade.

      Abs e adorei o comentário!

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  2. Adorei o post! Mesmo não trabalhando com isso, nem com nada perto disso, entendo bem o que você quis dizer.
    Eu acredito que a tal geração X ainda tenha muita força porque ainda há uma geração X de consumidores. Pra sua avó, por exemplo, deve ser tão difícil entender um app de iPhone quanto dar credibilidade a um anúncio no Facebook. Daqui a uns bons 20 anos, essa realidade vai ser muito diferente, quando a maior parte da população for das geraçōes Y, Z, alfa, etc.
    Eu me mudei do Brasil pra Inglaterra há pouco tempo, e posso dizer que aqui é bem diferente. A grande maioria das lojas e serviços tem interaçōes com mídias sociais, especialmente Facebook e Twitter. Investem bastante em divulgação até mesmo com envio de amostras grátis pelo correio (prática que também está ganhando força no Brasil. Eu mesmo cheguei a ganhar batom da Clinique!)
    Se você quiser um bom exemplo de uma empresa brasileira que tá fazendo sucesso assim, dá uma olhada no twitter do Ponto Frio, é demais!!!

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  3. Querida Renata! Adorei seu post muito bem argumentado e escrito. Parabéns!

    Sou da área e entendo completamente seu anseio. É frustante mesmo. Sou filha de geração Y, com quase 30. Comecei bem novinha a trabalhar com o famoso “digital” ou “online”. Fico nessa crise de pensar em mil ideias multiconectadas (até porque o briefing é sempre este) e ser devorada por perguntas como “quanto vou ter de lucro?” no final de uma bela apresentação de noites varadas.

    O que me conforta é pensar que em 2001 até 2003 era um parto fazer clientes acreditarem em certas coisas que, hoje em dia, são totalmente feijão com arroz. Links patrocinados, campanha em mídia online. Acompanhei de perto meu salário de redatora online sendo bem menor do que de um júnior com experiência offline. Havia preconceito, queriam investir quase nada, ainda acreditavam em formas obsoletas de marketing direto.

    Hoje, o cenário mudou e muitas empresas investem mais (proporcionamente) em online. Amém.

    Toda vez em que lembro deste cenário sinto um pouco mais de conforto. Afinal, a tevê existe desde que sua avó era uma criança. A internet ainda é muito nova, está numa fase de evolução. E no Brasil, a coisa é sempre embrionária.

    É como se a comunicação digital ainda fosse preto e branco, perto do que ela vai se tornar. E você, eu, outras pessoas estamos construindo isso. E dói mesmo.

    Tem uma coisa em nosso perfil de geração Y que provoca esta agonia. A falta de paciência de esperar, de ser formiguinha e ir aos poucos. De transitar no mundo dos X sem sofrer. É difícil pensar como eles, mas precisamos buscar seus pontos fracos e ir enfiando nossas ideias. Já consegui muitos resultados fazendo isso. Pequenos resultados, do ponto de vista do ROI, mas gigantes se pensarmos em nossas dificuldades de lidar com essa dicotomia.

    Força! Continue a nadar. Na Atlântida, ou não.

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  4. Adorei o Post. Muito bem escrito. Parabéns

    Responder
  5. Renata,
    eu tenho dois filhos (de 11 e 6 anos) e entendo o que você diz quando analisa o comportamento dessa nova geração em contato com as anteriores. A verdade é que tudo acaba se ajustando sozinho, independente da experiência de uso das pessoas com as redes sociais.

    O grande problema é realmente no MERCADO. Há uma excessiva necessidade de auto-afirmação de uma fatia dos profissionais sobre os conceitos das redes sociais. Discussões “pra lá de acaloradas” e radicalismo infinitos, tomam conta de fóruns e nos grupos do Facebook. É bate-boca sobre ética, ou falta de ética na criação de promoções em RSVP do “Feice”, sobre empresas que são perfis, sobre regras de uso dessa ou daquela rede, enfim. Um barraco só.

    Mas apesar disso tudo, eu ainda acho que “tudo faz parte”. Até mesmo esse tipo de comportamento dos profissionais. O mundo mudou absurdamente rápido e não há como não haver ranhuras, rusgas, rompimentos quando o assunto é comunicação. Isso é o verdadeiro comportamento social sobre o desconhecido. Pois por mais que já estejamos habituados com as consolidadas convenções comerciais de marketing, ainda sim eu acredito que a força da maioria é que determina o comportamento a ser adotado como prática estratégica.

    Por mais que achemos estranho certos comportamentos, não dá pra não levar em consideração por exemplo, que inúmeras pessoas marcaram que iriam na missa de 7º dia de uma personagem de novela né? (http://www.minim.in/1eT)

    Parabéns pelo artigo.

    Responder
  6. Excelente reflexão, Renata! Mesmo eu, que não trabalho com mídias, sinto os reflexos desse choque de gerações. Lembro bem quando estava na adolescência que meus pais torciam fervorosamente para que eu fizesse uma faculdade brilhante e arrumasse emprego numa multinacional, afinal isso dava status. A geração atual não pensa assim. A geração atual, quando não quer abrir seu próprio negócio, até PREFERE trabalhar em empresas jovens e modernas, porque sabe que em multinacionais os processos, carreiras e decisões demoram mais em virtude da alta e ultrapassada hierarquia.
    O agravante é que a maior parte dessas empresas ainda não está preparada para receber esses novos profissionais, que trabalham de fone no ouvido e camisa xadrez. Proibem muitas das vezes o acesso à messengers e sites como Facebook e orkut em nome da produtividade e contra o desperdício de tempo e recursos da empresa, mas entendem perfeitamente a um lanchinho/café na copa e uma pausa para um cigarro.

    Responder
  7. Esse post merece um livro-resposta :)

    Ao meu ver choques de geração sempre ocorreram, mas agora elas são apenas um dos aspectos do choque de paradigmas.

    Não dá para comparar por exemplo com o choque entre os publicitários BB e a geração pré-guerra mundial, afinal as entranhas da economia, da cultura e até (para não perder o costume de falar nisso) da religião estão mudando enquanto um paradigma marcado pelas coisas se dirige a um marcado pelas ideias (ainda que sejam ideias incultas como a última música da moda).

    Se vemos uma mudança de paradigma entre empresas que produzem dinheiro e empresas que conquistam espaço no caldo cognitivo (e tempo de atenção) humano como você destacou muito bem ao falar do Instagram, então a própria essência do objetivo do marketing muda. Ele deixa de ser para vender e passa a ser para conquistar tempo de atenção das pessoas.

    As pessoas gastam mais com o que ocupa mais suas mentes? Claro, mas #comofas para medir isso? Esse tempo é ocupado porque elas viram o anúncio na TV ou porque o Pinguim é amigo delas no Twitter?

    Essa é uma equação para a qual não tenho resposta, mas o fato é que a concorrência entre as grandes empresas é selvagem e não há espaço para ações de marketing cirúrgicas que não são facilmente mensuráveis.

    Hoje a Internet continua sendo naturalmente descentralizada e quase refratária à prática da mídia de massa, mas parece bem lógico supor que os meios de massa hoje distribuídos em papel ou por ondas (rádio, tv etc) construirão espaços de mídia de massa online, ou seja, em vez de sintonizar no canal da Globo as pessoas vão abrir o app da Globo para assistir TV.

    Quando isso acontecer as fronteiras entre massa e… como se chama a mídia de nicho? Bem, a fronteira será muito menor e ficará muito mais claro como é complexo lidar com centenas, milhares de nichos que jogam na sua cara e na cara dos outros nichos o que acham, do que gostam, o que odeiam em você e no seu produto. Nesse dia o profissional de comunicação e publicidade especializado em lidar com essas pessoas conectadas, super-conectadas, hiper-conectadas será muito mais valorizado.

    Enquanto esse exercício de futurologia não se concretiza (supondo que se concretizará) não há muito mais a fazer do que seguir as palavras do Cristiano Web e ir se ajustando.

    A questão é: como ir se ajustando… Para isso não tenho resposta boa, afinal são tantas possibilidades… Vai depender muito de cada empresa, acho.

    Responder
  8. Uau! Que texto gostoso, verídico e condizente com a minha realidade. O trecho sobre o sucesso de uma campanha on x ROI me atingiu em cheio! Como é difícil explicar isso para os clientes e fazê-los entender que tudo está dando certo! A opinião do Justos sobre essas nossas diferenças também me fez pensar: é verdade! Parece que eles, BB e X, têm maior facilidade de rentabilizar do que a gente. O instagram é um sucesso, mas não gera renda?!?!?!?! É absurdo!! Pensamos em tudo menos no retorno financeiro? Estranho… Sim, temos muito o que aprender e ensinar uns aos outros. Basta abrir a cabeça e parar com preconceitos entre gerações.
    Parabéns pelo texto!
    Abraço!

    Responder
  9. Pingback: Como usar as mídias sociais para ter sucesso em 2012 « Ádila Lopes

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